Sobre as dificuldades de enxergar e medir valores reversos

Cláudia Viviane Viegas

A literatura de logística reversa e economia circular, mesmo prolífica nos últimos anos, pouco traz sobre indicadores de logística sustentável. Os indicadores que existem geralmente partem de estruturas muito amplas (por exemplo, o Global Reporting Initiative, GRI, entre outros). Embora sejam relevantes, esses indicadores permanecem muito diluídos para espelhar, de forma realista, como o valor pode ser gerado, no dia-a-dia, para os negócios das empresas.

Poucos exemplos de casos de logística de negócios sustentáveis são reportados com indicadores construídos a partir de situações vividas pelas próprias empresas, como aponta um recente estudo de Björklund e Forslund(*), que ainda assim fornece apenas algumas pistas de como e por que é difícil enxergar valor dentro da ideia de fluxos reversos.

Considerando-se apenas a logística, em geral, indicadores econômicos são associados a custos operacionais de movimentação, escolhas de rotas, armazenamento, riscos de atrasos e de perda de confiabilidade nos prazos. Riscos de incertezas climáticas atrasarem ou minarem o negócio, então, sequer entram na maioria das tentativas de cálculo do valor.

Indicadores ambientais são associados ao uso de energia, geração de resíduos sólidos, emissões para o ar e para a água e, talvez, emissões de gases de efeito estufa. E indicadores sociais? É usual serem relacionados a questões de segurança, saúde, qualidade de vida no trabalho e efeitos para comunidades de interesse do negócio.

Valor que não se enxerga

No estudo com operadores logísticos suecos, apenas para citar um exemplo, Björklund e Forslund identificaram diversos desafios para a percepção de valor:

  • conflitos entre interesses de empresas, individualmente, e de toda a cadeia a que pertencem;
  • dificuldades de conciliar, simultaneamente, o atingimento de indicadores econômicos e sociais, especialmente por falta de percepção da duração dos efeitos desses trade-offs (e de que pactos podem ser estabelecidos e negociados por tempos determinados);
  • dificuldade de identificar e quantificar o valor dos produtos ou partes deles, nos canais reversos, e como esse valor pode ser redistribuído por esses fluxos ao longo do tempo, em cada estágio do retorno;
  • dificuldade de enxergar como se ganha e como se perde valor com os fluxos reversos ao longo dos ciclos de possível reuso e não reuso;
  • dificuldade de avaliar o peso do fator tempo no ganho ou destruição do valor.

A perspectiva do tempo é, sem dúvida, uma das lacunas mais desafiadoras para a implantação dos fluxos reversos. (Eu ouso dizer que pode ser a mais relevante.) O fator tempo é geralmente visto em termos de ganhos/perdas num período (anual, quadrimestral, trimestral, mensal), mas não é considerado em termos de quanto a passagem deste tempo pode agregar valor a um fluxo reverso – ou, ao contrário, destruir tal valor. A visão de tempo agregada a valor parece invisível.

Existe o tempo do fluxo do produto ou parte(s) dele no(s) canal(is) reverso(s) e o tempo dos efeitos desse fluxo sobre pessoas (clientes, fornecedores, desenvolvedores, operadores logísticos etc), sobre o meio ambiente e sobre as finanças. Geralmente esses tempos, ou sequer são percebidos, ou são percebidos de maneira confusa ou agregada – quando a criação de indicadores realistas requer justamente uma desagregação para a análise. Isto poderia ser um primeiro passo para enxergar dimensões de valor mais realistas que pudessem ser quantificadas e fizessem sentido para as partes envolvidas na cadeia produtiva.

(*) Björklund, M. Forslund, H. 2019. Challenges Addressed by Swedish Third-Party
Logistics Providers Conducting Sustainable Logistics Business Cases. Sustainability, 11, 2654, p.1-15.

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