App apoia a redispensação de medicamentos na Grécia

A Grécia há décadas enfrenta uma crise econômica e humanitária, que associa altas taxas de desemprego à chegada massiva de imigrantes. São 2,3 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza no país.

As Nações Unidas estimam que, em todo o mundo, um terço da população não conseguem comprar medicamentos básicos.

As novas gerações gregas estão enfrentando de cabeça erguida o problema da deterioração das condições de vida no país e encontrando soluções para ajudar pessoas sem condições de comprar o básico.

O engenheiro Thanasis Vratimos, com quem conversei em setembro deste ano, criou, há quase dez anos, um serviço voluntário, chamado Givmed, que alivia o problema do acesso a medicamentos para a população grega. Funciona de forma semelhante às farmácias solidárias. Porém, não recebe medicamentos expirados.

Nos últimos anos, o Givmed aperfeiçoou sua atuação. Vratimos criou um app que possibilita a qualquer cidadão grego cadastrar os medicamentos usados e não vencidos (em condições de recirculação) que tem em sua casa. Assim, um software é informado da “oferta”, em quantidades e categorias de produtos.

O Givmed recebe pedidos de pessoas que necessitam de medicamentos e não podem comprá-los. Essas informações são cruzadas com os dados cadastrados por cidadãos que têm estoques excedentes. Isso possibilita atender milhares de pessoas.

O Givmed conta com mais de cem unidades, a maior parte em Atenas e áreas próximas. Essas unidades têm um farmacêutico que inspeciona todos os medicamentos que os cidadãos que possuem excedentes levam até elas para redispensação.

Vratimos me disse que o Givmed agradou o Ministério do Trabalho, mas não o da Saúde, e o impasse entre ambos continua. O Givmed continua com seu trabalho, apesar dessas divergências.

Afinal, nenhuma ação que realmente busque resolver problemas da sustentabilidade fica imune a paradoxos, e saber conviver com eles, tentando soluções dinâmicas, é o que faz a diferença. Muitas vezes as soluções precisam de trade-offs no tempo e no espaço. Escolher entre ganhar e perder, agora ou depois. Escolher entre ganhar e perder, localmente ou em uma escala maior. Ou, quem sabe, trabalhar mecanismos de ganha-ganha. Soluções e escolhas associadas dependem de estudos e deliberação. Nada nessa esfera é simples, o que não quer dizer que seja impossível.

Vratimos recebeu vários prêmios e tem alguns apoios para seu trabalho. Porém, como em qualquer lugar, cogitar a mudança de mentalidade e atitude de pessoas e organizações com relação a esse problema é ainda um estigma. E sem isso é difícil avançar.

Agradeço a oportunidade de ter conhecido e conversado com esse empreendedor social que muito está fazendo pelos cidadãos gregos.

Segue uma mostra desse trabalho (não consegui legendas em Português):

https://www.bbc.com/news/av/stories-43155451/world-hacks-putting-your-leftover-pills-back-to-work

Cláudia V. Viegas

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